+

Folder
digital

Notícia

 

19/10/2020
Eleições 2020 nos EUA: o que o Ceará tem a ver com isso?

Provavelmente, nenhuma eleição pelo globo atrai mais atenção, gera maior cobertura midiática e tem maiores implicações na ordem geopolítica que o pleito presidencial nos Estados Unidos. No dia 3 de novembro deste ano, os estadunidenses devem escolher entre a continuidade do mandato do republicano Donald Trump, eleito em 2016, ou optar pela alternativa democrata, o veterano Joe Biden. No entanto, não é só lá que a apreensão pelo resultado paira no ar - por todo mundo, mercados, imigrantes e governos prendem a respiração enquanto acompanham a eleição da maior economia e maior potência militar do mundo. No Ceará, não é diferente.

“Tradicionalmente, os EUA são o principal parceiro comercial do Ceará, tanto no que se refere às exportações cearenses como às importações. Se fizer a comparação com o Brasil, o principal parceiro comercial é a China. Mas no Ceará, é o Estados Unidos”, explica Karina Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec). Isso porque, há anos, os EUA são o principal parceiro comercial do Ceará e principal destino das exportações do Estado.

Desde o início da década, os Estados Unidos representavam entre 36% e 37% das exportações locais, de acordo com a Fiec - de longe o melhor cliente estrangeiro para as empresas do Estado. A partir da segunda metade da década, o comércio aumentou. Segundo o Governo do Ceará, em 2019, os EUA foram o destino de 44% de todas as exportações do estado, totalizando US$ 2,2 bilhões.

Embora o aumento do comércio Ceará-EUA coincida com o mandato do presidente Donald Trump, explicação na verdade está no litoral cearense: entre 2017 e 2018, a Companhia Siderúrgica do Pecém começou a exportar placas de aço. De fato, na pauta de exportações, os principais itens vendidos pelo Ceará para os EUA são produtos siderúrgicos. A seguir, vêm as pás eólicas - uma consequência da mudança de matriz energética pelo mundo para fonte limpas.

De acordo com dados do Governo do Estado, a pauta de exportações cearenses para lá, no entanto, é bem maior e contempla 314 itens. Entre eles, calçados, sucos, pescados, melão, castanhas e cera de carnaúba. Ao todo, 33 municípios cearenses venderam para os norte-americanos. Os maiores beneficiados foram, segundo a Fiec, nesta ordem: São Gonçalo do Amarante (onde está o Porto do Pecém e a Companhia Siderúrgica), Caucaia (produção das pás eólicas) e Fortaleza (produtos diversos).

Já nas importações, o Ceará costuma comprar principalmente óleos minerais, combustíveis fósseis e seus derivados, como o plástico. Pelo menos 31 municípios importam direto dos EUA, conforme informações do Estado. Geralmente, a balança comercial é favorável para os cearenses - vendemos mais que compramos. No entanto, em 2020, o cenário se inverteu e a balança pendeu para o lado dos norte-americanos.

“Nós consideramos 2020 um ano totalmente singular. Hoje nós temos uma retração no que se refere à demanda mundial e, consequentemente, uma concorrência mais acirrada”, pondera Karina Frota. “No mundo, a preferência tem sido por itens produzidos no mercado doméstico”, avalia.

E como a eleição nos Estados Unidos pode afetar o mercado cearense? Desde o início do mandato, o presidente Donald Trump tem adotado medidas protecionistas para equilibrar o que chama de balança comercial “injusta” com muitos países, em que os EUA compram muito e vendem pouco. Um dos setores mais visados foi justamente o de aço, o principal produto do Ceará.

O aço, para alguns países, está taxado em até 25%. O Brasil conseguiu escapar das primeiras rodadas de tarifas, mas está na corda bamba - já neste outubro, Trump instituiu tarifas sobre o alumínio, e o Brasil foi afetado. Uma medida do gênero voltada para os itens siderúrgicos atingiria o coração do principal produto cearense.

Embora tenhamos escapado das primeiras rodadas de tarifa, as medidas protecionistas de Trump, que incentivam também a produção doméstica, já podem ter surtido efeito. Em 2019, o Ceará teve uma retração de 3,3% nas exportações para os EUA em comparação com 2018 - foi a primeira queda no comércio bilateral desde 2014.

A adoção de medidas protecionistas também tem apelo popular em estados americanos tradicionalmente republicanos e de economia rural, que apoiaram o presidente em 2016. Em 2019, Trump chegou a dizer que "O Brasil e a Argentina têm promovido uma forte desvalorização de suas moedas, o que não é bom para nossos agricultores".

Para se ter ideia, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria, itens como mamão e laticínios, vendidos pelo Brasil, já enfrentam duras barreiras não-tarifárias para entrar nos EUA. Mais medidas neste sentido também podem recair sobre a pauta de exportação cearense para lá, incluindo a fruticultura.

Imigração

Atualmente, segundo o Ministério das Relações Exteriores, mais de 1,6 milhão de brasileiros vivem legalmente nos Estados Unidos. O total de cearenses, no entanto, é incerto, já que o Itamaraty não contabiliza os expatriados por unidade federativa.

Contudo, é possível imaginar que não é pequeno. De acordo com levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há cearenses em pelo menos 81 países. “Pelo menos”, porque o levantamento registrou apenas aqueles que, mesmo estando fora, regularizaram a situação para votar nas eleições presidenciais (brasileiros no exterior só votam para presidente). Destes regularizados, mais de 8.500 são cidadãos do Ceará vivendo nos EUA.

O número real, no entanto, deve ser bem maior. Veja bem: em todo o mundo, menos de 400 mil brasileiros estão regularizados para votar, sendo que, como apontado acima, há mais de 1,6 milhões de brasileiros só nos Estados Unidos.

Assim, não é leviano supor que o número de cearenses por lá é ainda maior que este dado obtido pelo TSE,  que dá uma amostra da diáspora cearense no mundo. Uma população sujeita às reformas do sistema de imigração defendidas pelos dois candidatos à presidência dos EUA neste ano.

O médico cearense Thales Gomes, por exemplo, chegou aos Estados Unidos neste ano em meio à pandemia para fazer residência médica em um hospital na cidade de Kalamazoo, no estado do Michigan. Graças a um programa de intercâmbio, médicos de vários países atuam na instituição. De acordo com Thales, muitos de seus colegas que estão há mais tempo no país têm notado um endurecimento, por Trump, nas regras de imigração legal.

“O que eu tenho percebido, enquanto imigrante, médico, vindo daí, é que o Trump tem dificultado bastante questões relacionadas a todo tipo de imigração, não só a imigração ilegal”, conta o cearense, “Mesmo imigrantes com nível superior, que vêm pra cá já com oferta de emprego, ele tem dificultado muito. Se você me perguntar quem eu quero que ganhe, eu quero o Biden ganhe. Muito por essa questão da imigração, porque de fato vai facilitar minha vida na frente se o Biden ganhar”.

Fluxo aéreo Fortaleza-EUA

Uma das novidades mais importantes na aviação civil cearense na década, o HUB aéreo Air-France-KLM/Gol tem, como uma de suas principais rotas, os voos diretos do aeroporto de Fortaleza para as cidades de Orlando e Miami, no estado da Flórida, nos EUA, onde os turistas brasileiros chegam aos milhares para visitar os parques da Disney World.

Desde 2018, Latam e Gol operavam três voos rumo a estas duas cidades dos Estados Unidos. Na ocasião do primeiro voo pela Gol, o secretário estadual de Turismo, Arialdo Pinho, até compareceu ao aeroporto em gesto simbólico das oportunidades que a ligação direta com a maior economia do mundo representavam para o Ceará.

Com a facilidade de partir direto de Fortaleza, sem conexão em São Paulo ou Manaus, a viagem se tornou mais fácil e até mais barata. Já em 2020, pouco antes do apagão aéreo provocado pela pandemia do novo coronavírus, Arialdo Pinho afirmou até pleitear voos da American Airlines para o aeroporto da Capital cearense, fazendo de Fortaleza a “porta de entrada do Brasil” para os norte-americanos.

Quando as restrições exigidas no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus foram impostas na aviação internacional, as duas companhias suspenderam os voos para lá e, mesmo com o relaxamento, ainda não foram retomados. A retomada dos voos, embora se atentem às recomendações sanitárias e aos planos das companhias aéreas, também depende do aval do presidente estadunidense - em maio, Trump proibiu a entrada passageiros vindos do Brasil. Em setembro, a proibição foi levantada, mas restrições continuam em vigor.

Assim, o maior contato comercial com as aéreas norte-americanas e a transformação do Ceará não só na porta de entrada do Brasil, mas como uma viável porta de saída para turistas do Nordeste rumo aos EUA, depende, naturalmente, dos próximos capítulos na pandemia do coronavírus. Mas também perpassa pelo esforço político-econômico que envolve os governos locais e federais dos dois países.


Educação: acesso dificultado?

O laço das instituições de ensino cearense com as instituições de ensino dos Estados Unidos está entre os mais relevantes na relação Ceará-EUA, ao lado da economia. Desde a década de 60, a Universidade Federal do Ceará (UFC) - maior universidade pública do Estado - mantinha um acordo com a Universidade do Arizona para formação de professores que iam estudar na terra dos ianques. O contato acabou por ser encerrado, mas agora está em negociação para ser retomado.

A despeito disso, ainda hoje, as instituições de ensino superior com que a UFC mais se relaciona, do ponto de vista institucional, da troca de conhecimento e intercâmbio, são todas norte-americanas, segundo a Pró-Reitoria de Relações Internacionais (ProInter). As principais são: Universidade de Harvard, Universidade da Carolina do Norte, The College of New Jersey, Florida International University, Universidade de Illinois, National Cancer Institute e Texas A&M University.

“O intercâmbio é importante, você acaba tendo contato com outra língua e as universidades americanas em área de pesquisa estão no topo do mundo. O intercâmbio permite o contato com outra cultura, com com pessoas de diferentes nacionalidades”, avalia o professor Rodrigo Rego, coordenador do ProInter-UFC.

UFC participou de pesquisas com outras instituições particulares e públicas, como a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e a Universidade Federal do Cariri (UFCA).
UFC participou de pesquisas com outras instituições particulares e públicas, como a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e a Universidade Federal do Cariri (UFCA). (Foto: Aurelio Alves)

Durante a vigência do programa Ciências Sem Fronteiras, que enviava estudantes brasileiros para estudar em universidades no exterior, a UFC teve recorde de intercambistas entre 2012 e 2016. Somente em 2014, mais de 1 mil foram para o exterior. Em todos os estes anos, o destino preferido pela maioria dos alunos que ia estudar fora era os Estados Unidos. Sozinho, o país recebia quase 25% dos estudantes da universidade que fizeram intercâmbio pelo programa do governo federal.

“Pela minha experiência, os Estados Unidos são extremamente abertos quando eles identificam alunos de pós-graduação, quando identificam potencial científico nessa pessoa, médicos, engenheiros”, pontua Rodrigo. Eles mesmo estudou Na New York University, na pós-graduação, entre 2015 e 2017, por iniciativa própria: entrou em contato com a instituição, realizou todos os trâmites e ficou no país pelo período, um verdadeiro celeiro para “cérebros” de todos os países do mundo.

No entanto, desde o início do mandato de Donald Trump o cenário tem se alterado. Em plena pandemia do novo coronavírus, o governo decidiu revogar o visto dos estudantes estrangeiros que não fossem ter aula presencial no segundo semestre. Inclusive, desde 2017, um dos destinos preferidos dos intercambistas da UFC tem sido a França.

Trump também tem dificultado as formas de imigração legal para os Estados Unidos. Na primeira semana de outubro, alterou as regras para emissão de visto a trabalhos qualificados - graduados, com especialização, um tipo muito procurado nos países desenvolvidos e que, por isso, têm maior facilidade para imigrar.

Agora, Trump reduziu o escopo de cursos superiores contemplados pelo visto de qualificação, diminuiu o tempo de duração e exigiu que as empresas paguem mais por esses profissionais, o que, na prática, desestimula o convite a estrangeiros para trabalhar lá.

Assim, as propostas de Trump ou Biden para imigração, trabalhadores e estudantes estrangeiros, entre outras, acabam por recair nas pretensões acadêmicas ou trabalhistas de quem está no Ceará e pretende viver, ao menos um período, na terra da liberdade.

Caso antigo: EUA e Ceará na Segunda Guerra Mundial

A relação dos EUA com o Ceará vem de longa data, desde a Segunda Guerra Mundial, durante o governo de Getúlio Vargas. À época, após o Brasil entrar na guerra ao lado dos aliados, várias bases no litoral do País foram cedidas aos norte-americanos, que queriam controlar o tráfego marítimo e os céus neste ponto do Oceano Atlântico.

Como um dos pontos mais próximos à África e à Europa, o Ceará foi um dos escolhidos para receber os ianques. Os estadunidenses ficaram aquartelados nas bases aéreas do Pici (onde hoje está o Campus do Pici da UFC) e do Cocorote (onde hoje está o Alto da Balança, no que foi a “primeira versão” do Aeroporto Internacional Pinto Martins). No entanto, a estadia dos soldados pela Capital cearense deixou várias marcas, algumas simbólicas, outras arquitetônicas, mas sobretudo na sociedade da época.

Estima-se que mais de 50 mil norte-americanos tenham passado por aqui no período. “Fortaleza ainda era muito pequena, muito provinciana, então aquilo foi uma loucura. O americano chegou trazendo o jeans, a Coca-Cola, o cigarro. Os grandes zeppelins, que onde iam as pessoas paravam para ver”, explicou o major e historiador Gustavo Augusto de Araújo Chaves, autor da obra História do Ceará na Segunda Guerra Mundial, em entrevista ao jornalista Carlos Mazza para O POVO.

Um dos ícones da arquitetura fortalezenses no litoral, o Estoril passou pelas mãos dos estadunidenses. Construído entre 1920 e 1925 pelo português José Magalhães Porto, o homem viveu ali com a família até 1942, quando os norte-americanos aportaram aqui. Depois, ele arrendou a construção, que foi transformada em cassino e clube de veraneio para os soldados, com shows, jogatina e o glamour, algo nostálgico, que ainda hoje há por ali.

Fonte:  O povo

voltar