+

Folder
digital

Notícia

 

21/01/2019
Modal esquecido em ascensão estratégica
Empresas redescobriram a navegação de cabotagem como alternativa mais econômica ao frete rodoviário, depois do tabelamento que encareceu o transporte feito por caminhões. No ano passado, foram movimentados mais de 1 milhão de contêineres de 20 pés entre os portos ao longo da costa brasileira, segundo a Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac). É uma marca recorde que corresponde a mais de 1 milhão de viagens rodoviárias que deixaram de ser feitas em 2018. Historicamente, o custo do frete de cabotagem é até 20% menor do que o rodoviário. Apesar disso, responde por apenas 11% da movimentação de carga entre todos os meios de transporte. Com a greve dos caminhoneiros que praticamente parou o País, empresas que já usavam a cabotagem aumentaram os volumes transportados e quem não usava passou a usar. A paralisação, em maio do ano passado, deu um impulso adicional à cabotagem, que vinha em expansão nos últimos anos. No primeiro semestre, antes dos desdobramentos da greve, os volumes transportados pela cabotagem cresciam 13,5% em relação ao ano anterior. Mas, depois da paralisação, o ritmo anual de expansão subiu para 15,6% até setembro, segundo um levantamento da Abac. As rotas de cabotagem mais procuradas são as que partem do Norte e Nordeste para o Sul e o Sudeste. Antes do tabelamento, o transporte de cargas em caminhões dos estados nordestinos para São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, entre outros, era barato porque se tratava de frete de retorno. Como o polo de produção do País fica nos estados do Sul e do Sudeste, os caminhões retornavam praticamente vazios do Norte e Nordeste. Por isso, o valor do frete nessa rota era baixo. Mas, com a obrigatoriedade da tabela, o frete de retorno deixou de existir e as empresas do Norte e Nordeste tiveram de buscar saídas econômicas. Vantagens Para o advogado Larry Carvalho, especialista em Direito Marítimo, a crise de abastecimento que o País atravessou em 2018, trouxe um alerta para outros modais de transporte. “A crise expôs a dependência do País a um único modal e demonstrou a necessidade de diversificação e a subutilização de outros modais mais eficientes, com destaque para o transporte marítimo por cabotagem e águas interiores. Fato que resultou no crescimento da cabotagem acima de dois dígitos, tendo somente no primeiro semestre de 2018 registrado uma expansão de 13%. Necessário destacar que a taxa de emissão de CO2 do modal marítimo representa cerca de um décimo da provocada pelo transporte em rodovias e um terço das ferrovias. Além disso, em termos de energia, o modal é cinco vezes mais eficiente do que as rodovias e três vezes mais do que as ferrovias”, destaca o especialista. Carvalho aponta que, no Ceará – apesar de coincidentemente, após a crise do abastecimento –, a entrada em operação do novo hub aéreo, no Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, se mostra como nova porta estratégica, mas o valor elevado do frete aéreo inviabiliza em certos casos. “O alto custo dificulta que ele (transporte de cargas) seja uma alternativa economicamente viável ao transporte rodoviário, de sorte que tende a servir como modal complementar, para os casos em que necessidade de rapidez na entrega seja importante para que o alto custo valha a pena”, justificou o especialista. Operação O trauma da greve dos caminhoneiros e o tabelamento do frete levaram o setor produtivo a procurar modais alternativos ao rodoviário para o longo prazo. Segundo pesquisa do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), que entrevistou 100 indústrias do grupo das mil maiores em faturamento, a expectativa do empresariado é, até 2021, reduzir de 87% para 79% a fatia de cargas transportadas por estradas. Enquanto isso, as ferrovias devem subir de 7% para 14% sua participação, enquanto a cabotagem, que liga portos nacionais – tende a crescer de 4% para 7%, apontou o levantamento. Ao migrar para cabotagem, os empresários precisam atentar sobre essa operação nos portos, bem como para a legislação específica. “O trabalho portuário é submetido a fiscalização rigorosa em prol da máxima eficiência, de sorte que o dono da carga deve se cercar de profissionais reconhecidos no mercado. Do contrário, pode sofrer com pesadas multas administrativas e outros dissabores”, aponta, por sua vez, o advogado Jeová Costa Lima Neto, também especialista em Direito Marítimo. Neto ressalta que, com relação aos custos menores do transporte marítimo, embora bem acessíveis em relação ao rodoviário, é importante que os donos de carga estejam atentos a cláusulas de demurrage, detention, THC, além de outras taxas. “Caso o contêiner não seja devolvido ao transportador em tempo hábil, o dono da carga terá de pagar multas de sobreestadia do contêiner”, reforça. O especialista explica como é calculado o transporte marítimo. “O frete é negociado livremente com os transportadores marítimos (armadores e NVOCCs). Geralmente, essa negociação é intermediada por agentes de carga. Os preços são livres, seguem a lei da oferta e da procura. O frete de cabotagem tem-se demonstrado bastante competitivo e com custo inferior ao rodoviário, principalmente após o tabelamento”, afirma Jeová Neto. Alternativa deve fortalecer a logística do Brasil Mais sustentável, com maior segurança, menor risco de avarias e custo reduzido. Esses são alguns dos fatores que tornam a cabotagem – navegação pela costa brasileira – uma das opções mais vantajosas para empresas e produtores que querem distribuir suas cargas por todo o território nacional. Com dimensões continentais e dependente das rodovias, o País vem buscando novas soluções logísticas para atender às demandas do mercado brasileiro. O transporte porto a porto pela costa tem se difundido. Especialmente para trajetos mais longos, a cabotagem se apresenta como a solução ideal. A redução de custos em rotas de maior distância pode chegar a 30% em comparação com o modal rodoviário. Atualmente, três grandes armadores operam navios de contêineres na cabotagem, o que demonstra que o segmento já é relevante, mas que tem muito potencial para crescer no decorrer dos próximos anos, uma vez que é esperado um novo ciclo de desenvolvimento econômico para o Brasil até o fim de 2022. Estratégias O principal desafio para o crescimento da cabotagem é o planejamento. Para que o aumento do lead time seja compensado pela redução de custos, menor risco de avarias/sinistros e ganhos com sustentabilidade (com menor emissão de CO2), é importante que os gestores conheçam os serviços marítimos disponíveis e o modus operandi de cada terminal de origem e destino. “O Brasil precisa diversificar sua matriz logística e reduzir a dependência das estradas para desenvolver sua economia. A cabotagem consolidada fortalece nossos portos, armadores e produtores em toda a costa do País”, ressalta o advogado Larry Carvalho (foto). O custo da logística no Brasil equivale a 12% do Produto Interno Bruto (PIB), contra apenas 7,7% nos EUA, segundo o Ilos. O transporte representa, sozinho, quase 60% desse custo. “Isso acontece justamente por causa da dependência brasileira do modal rodoviário, que é mais caro”, assevera o especialista em Direito Marítimo. Portanto, se houver investimentos significativos no setor e um apoio maior por parte do Governo Federal, certamente o segmento deverá registrar crescimento exponencial ao longo dos próximos anos. Fonte: O Estado CE

voltar