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16/11/2020
Como a tendência de queda do dólar pode afetar o Ceará

Após registrar um salto de quase 50% no ano, quando bateu a marca de R$ 5,99 no dia 8 de maio, o dólar acumula até agora, no ano, alta de 34% ante o real -no último dia 13, fechou aos R$ 5,47. Para os próximos meses, no entanto, a expectativa é que o câmbio se estabilize. A previsão do mercado é de queda em torno de 4,5% em 2021. Entre os principais fatores que deverão influenciar o câmbio no curto e médio prazos estão a situação fiscal do Brasil, o andamento das reformas e, no cenário global, a recuperação da atividade após a crise provocada pelo coronavírus e a condução das disputas comerciais no mercado internacional, sobretudo entre China e Estados Unidos, tendo o presidente eleito Joe Biden, do Partido Democrata, como um ator completamente novo neste cenário.

Mas, se por um lado, o dólar alto prejudica as importações brasileiras e, no caso do Ceará, a de produtos como trigo e combustíveis à base de petróleo, que estão entre os principais itens da pauta de importação do Estado, por outro viés, a moeda norte-americana valorizada favorece as exportações de aço, calçados, castanha e frutas, principais produtos exportados pelo Estado.

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No entanto, apesar do estímulo para a indústria local, a manutenção do dólar em patamares elevados vêm pressionando a inflação, o que poderá refletir no aumento da taxa de juros. "Manter o real desvalorizado foi uma forma de estimular as exportações, mas isso já está refletindo nos índices de preços. O banco Central praticamente não atuou para conter o dólar, e o Brasil aproveitou para estimular as exportações. Mas, a depender da retomada da economia no próximo ano, há dúvidas de que apenas as exportações poderiam ser suficientes para ativar a economia", diz o economista Alex Araújo.

"Para o Ceará, o trigo é muito relevante, assim como o preço do petróleo, então não há dúvida de que o dólar alto acaba contaminando a inflação", diz Araújo.

O bolso dos cearenses, sobretudo aqueles de renda mais baixa, tem sido pressionado pelos preços de alimentos. Os dados mais recentes do IBGE mostram altas significativas em itens que impactam diretamente na mesa do consumidor, como arroz (subiu 11% em outubro), tomate (15,9%) e batata (18,4%). A retração do dólar ajudaria a conter esta tendência de ascensão dos preços.

"Se o Brasil conseguir fazer um ajuste fiscal, o real poderá buscar uma convergência com as moedas de países emergentes, mas se não conseguir é muito provável que haja algum aumento de imposto, para ajudar o fiscal, ou da taxa de juros, para atrair recursos externos", prevê Araújo.

Cenário interno

Além do cenário externo desfavorável, é o ambiente interno que vem pressionando de forma mais intensa o câmbio no País, diz Ricardo Coimbra, presidente do Conselho Regional de Economia no Ceará (Corecon-CE). "O fato de a moeda brasileira ter tido uma desvalorização maior do que a de outros países está muito relacionado ao ambiente interno, à dificuldade de aprovação da reforma tributária, da reforma administrativa. São essas as incertezas que a economia brasileira gera no mercado".

Quanto ao cenário externo, Coimbra acredita que a mudança de governo nos Estados Unidos pode gerar uma expectativa de melhora na medida em que sejam reduzidas as tensões com a China. "Existe uma expectativa de melhora desse cenário em função da própria eleição do Biden, com uma aproximação entre os Estados Unidos e a China, além da adoção de políticas monetárias para estimular a economia americana".

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Entre essas medidas, Coimbra destaca a manutenção de baixas taxas de juros. "Isso deve gerar uma perspectiva de melhora para o cenário internacional, fazendo com que a taxa de câmbio do real ante dólar seja mais favorável para o real. E o mesmo deverá acontecer com outras moedas".

De acordo com o último Boletim Focus, do Banco Central (BC), de 9 de novembro, a expectativa é que o dólar feche 2020 cotado a R$ 5,45, o que representaria uma alta de 36% no ano. Para o fim de 2021, no entanto, os economistas consultados pela instituição estimam o dólar a R$ 5,20, passando para R$ 5,00 no final de 2022 e subindo a R$ 6,00 no fim de 2023.

Na avaliação de Ricardo Coimbra, a situação fiscal do País deverá ser uma das principais variáveis que irá influenciar na recuperação econômica. "Existe essa perspectiva de recuperação, mas a situação fiscal vai ser preponderante. Isso vai depender de como a situação fiscal do Brasil vai se desenvolver a partir do ano que vem, de que forma o governo vai reestruturar o seu orçamento, e como vai negociar a reforma administrativa e tributária no Congresso. Isso vai ser importante para a expectativa do mercado para essas variáveis", diz.

Investimento externo

Para o economista Allisson Martins, professor de Economia da Unifor, considerando as principais variáveis que têm impacto sobre o real em relação ao dólar e ao euro, o risco fiscal brasileiro, sobretudo com os gastos emergenciais por conta do coronavírus, vem refletindo no fluxo de investimentos estrangeiros para o País. "Isso impacta o sentimento dos investidores, fazendo elevar a aversão ao risco e, assim, 'empurram' o câmbio para cima".

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No entanto, Martins avalia que, diante dessa desvalorização, os ativos brasileiros ficam mais atrativos para o estrangeiro, podendo favorecer o real no médio prazo. "Os investidores globais observam com atenção o grau de desvalorização do real frente às demais moedas de países emergentes, e também que os ativos no mercado de capitais estão relativamente baratos, que por sua vez, em decorrência da entrada de moedas estrangeiras para aproveitar as condições favoráveis, podem pressionar o câmbio para baixo", diz.

Ontem (13), o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o câmbio vai descer quando o Brasil tiver o sucesso suficiente para atrair mais investimentos externos. Mas, segundo ele, o País continua sendo o quarto maior destino de investimentos diretos no mundo.

Emergentes

No ano, o real foi a moeda que mais se desvalorizou entre as economias de países emergentes. Com isso, o País poderá deixar, ainda neste ano, o grupo das dez maiores economias do mundo, conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) compilados pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

A estimativa é que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, medido em dólar, sofrerá uma retração de 28,3% em 2020 em relação a 2019, passando de US$ 1,8 trilhão para US$ 1,4 trilhão. Segundo essas projeções, o Brasil, que hoje ocupa a nona posição do ranking, passaria a ocupar a 12ª colocação, sendo ultrapassado por Canadá, Coreia do Sul e Rússia.

De janeiro a novembro deste ano, o fluxo cambial brasileiro ficou negativo em US$ 20,194 bilhões, conforme dados apresentados pelo Banco Central. Em igual período do ano passado, o resultado do fluxo era negativo em US$ 21,517 bilhões.

Após o dólar registrar uma alta de 34% no ano, a expectativa é que em 2021 a moeda americana seja estabilizada. No entanto, a situação fiscal do País, a recuperação da atividade econômica e o ambiente externo poderão adicionar volatilização à moeda.

Fonte: Diário do Nordeste 

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