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15/04/2020
Pesquisadores do setor aquaviário adaptam atividades durante pandemia

Instituições de pesquisas ligadas ao setor aquaviário reorganizaram as atividades para manter os estudos durante a pandemia do novo coronavírus. Pesquisadores de todo o Brasil vêm seguindo as recomendações do Ministério da Saúde e adotaram o teletrabalho (home office) nos casos possíveis. Atividades que envolvem laboratórios e simuladores estão mais impactadas nesse período. Devido às medidas de isolamento social, um dos desafios é encontrar alguns insumos necessários aos ensaios, já que, em algumas cidades, grande parte do comércio está fechada ou abrindo parcialmente.

O Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH) acompanha as diretrizes do Ministério da Infraestrutura, ao qual está subordinado. O diretor do INPH, Domenico Accetta, contou que grande parte dos pesquisadores vem trabalhando em home office analisando e consolidando dados apurados recentemente, como levantamentos hidrográficos, além de informações sobre ressacas nas regiões Sul e Sudeste demandadas pelas prefeituras. Ele acrescentou que existem estudos de dragagem em andamento e que muitas discussões de engenharia vêm ocorrendo por videoconferência. “Estamos nos reinventando e quebrando paradigmas”, afirmou Accetta.

As medidas adotadas pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) seguiram as recomendações do governo de São Paulo. Desde 17 de março, os grupos de risco foram colocados em teletrabalho e, a partir do dia 24, a medida foi estendida a todos os funcionários. Algumas equipes têm trabalhado dando suporte ao governo na área específica da pandemia, como o sistema utilizando celulares para localização de aglomerações de pessoas e elaboração de estatísticas sobre a quarentena. “Devido a esta restrição, todas as atividades laboratoriais e ensaios de campo foram suspensos, até o término do decreto estadual”, explicou o pesquisador João Lucas Dozzi Dantas, responsável pelo Laboratório de Engenharia Naval e Oceânica do IPT.

Dantas disse que muitos trabalhos do laboratório continuam de forma remota porque os pesquisadores estão focados em tarefas que envolvam cálculos de engenharia e desenvolvimento de soluções tecnológicas. Toda a equipe técnica e administrativa está em trabalho remoto. Dentre os trabalhos em andamento estão projetos de hidrodinâmica de estruturas oceânicas (desenvolvimento de modelos numéricos); segurança no atracamento de barcaças em eclusas; e análise de segurança de navegação de comboios fluviais.

“Em nosso laboratório, o principal impacto sentido foi a paralisação das atividades relacionadas aos ensaios laboratoriais e de campo, impedindo a sequência de trabalhos em andamento. Os projetos terão atrasos devido a impossibilidade de realizar a contratação de serviços ou aquisição de equipamentos que estavam previstos”, detalhou Dantas. Ele acredita que a gestão de equipes e a comunicação são um desafio natural nestas condições, o que é compensado por softwares disponíveis e sistemas no IPT. Outro desafio está na obtenção de novos projetos, pois grande parte de empresas do ramo está com atividades paralisadas, incluindo a contratação de novos projetos de pesquisa.

A reitoria da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ) determinou a suspensão de todas as atividades acadêmicas presenciais em função da pandemia. Em muitos casos, as atividades de pesquisa dos alunos de pós-graduação estão se desenvolvendo em regime de trabalho. A interação com os orientadores se dá através de videoconferência e aplicativos de troca de mensagens. A UFRJ também regulamentou a possibilidade, em condições bem específicas, da ocorrência da defesa das teses e dissertações de forma remota. Os laboratórios diretamente envolvidos na luta contra a pandemia operam em regime diferenciado.

O diretor-executivo do LabOceano (Laboratório de Tecnologia Oceânica) da Coppe/UFRJ, Paulo de Tarso Themistocles Esperança, disse que não há atividades presenciais no laboratório, conforme determinam as diretrizes da UFRJ e a recomendação das autoridades sanitárias. Estão mantidas as atividades de vigilância patrimonial e de manutenção básica da infraestrutura. “Nossa recomendação é a de seguir estritamente o chamado isolamento social. No entanto,replique montre parte da pesquisa envolve o planejamento de atividades; simulações computacionais; desenvolvimento de projetos e desenhos em CAD e outras atividades similares. Estas atividades seguem sendo desenvolvidas por parte da equipe em suas respectivas residências”, ressaltou Esperança.

O LabOceano também manteve reuniões diárias por videoconferência com a participação do gerente de projetos e dos chefes dos diversos setores para atualização das atividades das pesquisas. A ideia é realizar o que for possível até o retorno às atividades normais. Estas atividades envolvem de 30% a 40% da força de trabalho do LabOceano. Entre os projetos em andamento, existem pesquisas solicitadas por empresas em diferentes níveis de desenvolvimento. Há estudos da estabilidade de embarcações sob condições de avarias no casco e do comportamento no mar de um novo projeto de FPSO para a costa brasileira, além de testes de sistema submarino de aquecimento de risers e de ferramenta submarina para detecção de falha em casco de plataforma.

O diretor-executivo do LabOceano disse que uma das dificuldade iniciais reside na maior dificuldade de interação entre os pesquisadores. “O contato pessoal direto é importante para a realização da pesquisa. O uso de ferramentas de comunicação via internet ameniza um pouco essa dificuldade, mas sempre há uma perda na qualidade da interação”, comparou Esperança. O professor acrescentou que, nos laboratórios que utilizam modelos físicos, o grande impacto está associado à impossibilidade de realizar os ensaios. Apenas as atividades de planejamento e de preparação podem ser realizadas. Outro impacto está associado às dificuldades de aquisição dos diversos insumos necessários em função da paralisação de diversos setores da indústria e de serviços.

O professor vê como principal desafio a obtenção dos recursos financeiros necessários à manutenção dos técnicos e pesquisadores que compõem as equipes de pesquisa. Ele relatou que, em função da crise econômica, já notava-se uma redução no aporte de recursos das empresas, o que vem dificultando manter as equipes de diversos laboratórios de pesquisa. Para Esperança, a pandemia tornou mais aguda uma ‘anemia’ que vem debilitando o desenvolvimento da pesquisa no Brasil já há alguns anos. “A redução das verbas para as universidades públicas — que realizam a maior parcela da pesquisa no país — bem como o expressivo corte nas bolsas de pós-graduação são ações expressas no sentido de desmontar a capacidade de pesquisa desenvolvida nos últimos 50 anos”, lamentou.

Pesquisadores do laboratório Tanque de Provas Numérico da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (TPN-USP) vêm trabalhando remotamente e mantendo, a cada dois dias, reuniões dos líderes das equipes com seus times, onde são repassadas as tarefas e planejadas as atividades. O professor Eduardo Aoun Tannuri contou que há uma equipe mínima de responsáveis pela TI que está presente no laboratório duas vezes por semana para garantir os sistemas computacionais e acesso remoto, bem como manutenção dos sistemas críticos. “Neste período, não estamos parados. A equipe está executando pesquisas, simulações fast-time, estudos de amarração, modelagem hidrodinâmica, análises conceituais PIANC, dentre outros trabalhos que dispensam a presença nos simuladores”, destacou Tannuri.

Os pesquisadores também aproveitaram o período para incrementar o banco de dados de mais de 250 navios e de portos, atualizar a versão do sistema de visualização (com mais realismo e efeitos gráficos), incluir novos efeitos hidrodinâmicos (como squat com fundo variável) e construir um novo simulador full-mission com soluções tecnológicas inovadoras. O objetivo, segundo o professor, é garantir a vanguarda tecnológica na área de simulação de manobras navais. Como as atividades presenciais estão suspensas, as simulações de manobras com comandantes e práticos não estão sendo realizadas, bem como os ensaios no tanque de ondas do TPN. Essa suspensão causará acúmulo de tarefas no retorno das atividades presenciais, o que demandará talvez turnos extras de trabalho ou atividades nos finais de semana. A finalização da construção de um novo simulador de manobras de operações ship-to-ship, que estava previsto para ser entregue no final de abril, será adiada por conta das restrições.

O professor avalia que o TPN possui um bom sistema computacional e de rede, que permite a execução de tarefas remotamente, com acesso aos servidores e supercomputadores. Ele considera que as tarefas das equipes estão sendo realizadas num ritmo bem adequado. “O TPN-USP já está se adaptando para a nova realidade, com medidas que seguem as recomendações sanitárias: redução de números de participantes, participação remota nas seções de briefing e itens de higiene distribuídos nas salas”, salientou Tannuri.

Cenpes — A Petrobras criou uma frente científica que busca soluções para ajudar no combate à pandemia da Covid-19. A Estrutura Científica de Resposta (ECR) reúne dezenas de pesquisadores do Cenpes (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento), tecnologia de informação (TI) e transformação digital, que atuam para conectar informações, demandas, ofertas de ajuda e conhecimento técnico para enfrentar os múltiplos desafios associados ao avanço do novo coronavírus.

Segundo a Petrobras, algumas ideias já foram colocadas em prática como o uso da capacidade dos supercomputadores para apoiar um esforço internacional e nacional de pesquisa de medicamentos e vacinas. Engenheiros da companhia participaram do desenvolvimento de um protótipo de ventiladores pulmonares com potencial de serem produzidos em larga escala pela indústria nacional. Além disso, câmeras termográficas utilizadas na inspeção de plataformas de produção estão sendo utilizadas para identificação da temperatura corporal em pontos estratégicos.

Fonte: Portos e Navios

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